August 2006


Tô ficando velho!
Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro e fui buscar minha filha adolescente, na saída do show do Charlie Brown Jr.
Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio de pijama, tentei entrar na conversa.
“E aí, o show foi legal ?”
A resposta veio de uma mais exaltada do banco de trás:
“Cara! Tipo assim, foda !”
E outra emendou:
“Tipo foda mesmo!”
Fiquei tipo assim, calado o resto do percurso, cumprindo minha função de motorista.
Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha, senão, daqui a pouco, vamos precisar de tradução simultânea.
Pra piorar ainda mais, inventaram o ICQ, essa praga da Internet, onde elas ficam horas e horas escrevendo abobrinhas umas pras outras, em código secreto.
Tipo assim:
“kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh d+, sl. T+ Bjoks. Jubys”.
Em português:
“Cacete! Você também nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até mais, beijocas. Jubys”.
Jubys, que deve ser pronunciado “diúbis”, é isso mesmo que você está imaginando, a assinatura. Só que o nome de batismo é Júlia, um nome bonito, cujo significado é “cheia de juventude”, que eu e minha mulher escolhemos, sentados na varanda, olhando a lua…
Pois, Jubys, é hoje, essa personagem de cabelo cor de abóbora, cheia de furos na orelha, que quer encher o corpo de piercings e tatuagens.
Tô ficando velho!
Outro dia, tentei explicar pro mesmo bando de adolescentes o que era uma máquina de escrever.
Nunca viram uma.
A melhor definição que consegui foi:
“é tipo assim… um computador que vai imprimindo enquanto você digita”.
Acho que não entenderam nada !
Eu sou do tempo do mimeógrafo.
Pra quem não sabe, é uma máquina que você coloca álcool e dá manivela, prá imprimir o que está na folha matriz.
Por sua vez, essa matriz precisa ser datilografada (ver “datilografia” no dicionário) na tal máquina de escrever, sem a fita (o que faz com que você só descubra os erros depois do trabalho feito), com o papel carbono invertido…
Enfim, procure na Internet, que deve haver algum site sobre mimeógrafo, papel carbono, essas coisas…
Se eu ficar explicando cada vocábulo descontinuado, não vou conseguir acompanhar meu próprio raciocínio.
Voltando às garotas, a cultura cinematográfica delas varia entre a “obra” de Brad Pitt e a de Leonardo de Caprio.
Há anos tento convencê-las a ver “Cantando na Chuva”, mas, sempre fica para depois.
Um dia, cheguei entusiasmado em casa, com a fita de um filme francês que marcou minha infância : “A guerra dos botões”.
Juntei toda a família para a exibição solene e a coisa não durou nem 5 minutos!
O guri foi jogar bola, Jubys inventou “um trabalho de história sobre a civilização greco-romana que tem que entregar tipo assim até amanhã senão perde ponto”
E, até minha mulher, de quem eu esperava um mínimo de solidariedade, se lembrou que tinha um compromisso com hora marcada e se mandou.
Fiquei ali, assistindo sozinho e lembrando do tempo em que eu trocava gibi na porta do Capitólio.

* * *

Uma amiga me contou que o filho de 10 anos ficou espantado, quando viu um telefone de discar.
Sabe telefone de discar?
É tipo assim, um aparelho sem teclas, geralmente preto, com um disco no meio, todo furado, onde cada furo corresponde a um algarismo.
Você enfia o dedo indicador no buraco correspondente ao número que precisa registrar, gira o negócio até uma meia lua de metal e solta a roleta, que, lá por dentro está presa a uma mola e faz ela voltar à sua posição inicial.
Esse aparelho serve para conversar com outra pessoa, como qualquer telefone comum, desde que esteja, é claro, conectado na parede.
Eu sou do tempo em que vidro de carro fechava com maçaneta. E o Fusca tinha estribo e quebra vento.
Não espalha, mas, eu andei de Simca Chambord, de DKW, Gordini, Aero Willis e até de Romiseta.
Não dá pra explicar aqui o que era uma Romiseta. Só vou dizer que era tipo assim um veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente entrava pela frente e a direção era grudada na porta.
Procure na Internet, deve haver um site!
Tá bom, tá bom, confesso mais!
Usei Camisa Volta ao Mundo, casaquinho de Ban-lon, assisti à Jovem Guarda, o Direito de Nascer… Mas, é mentira essa história de que meu primeiro disco gravado foi em 78 rotações !
Há pouco tempo, João, meu filho de 8 anos, pegou um LP e ficou fascinado! Botei pra tocar e mostrei a agulha rodando, dentro do sulco do vinil.
Expliquei que aquele atrito gerava o som que estávamos escutando…
Mas aí, ele já estava jogando o Pokemon Stadium, no Game Boy.
Não é que ele seja desinteressado…eu é que fiquei patinando nos detalhes.
Ele até que é bastante curioso e adora ouvir as “histórias do tempo em que eu era criança”.
Quando contei que a TV, naquela época, era toda em preto e branco, ele “viajou” na idéia de que o mundo todo era em preto e branco, e, só de uns tempos para cá, é que as coisas começaram a ganhar cores.
Acho que de certa forma ele tem razão.
“Tipo assim”…

por Kledir Ramil

Conhece-te a ti próprio.
Não dês ouvidos a rumores
Nem ajas ou fales sem pensar primeiro;
Sê acessível, simples mas sem vulgaridade;
Aos amigos, após experimentados,
Aceita-os, prende-os com arpões de aço,
Mas não dês primeiro a mão em demasia
A qualquer estoirado camarada.
Evita, teme questionar,
Mas, se entrares em luta
Que saias com o teu opositor temendo-te a ti.
Atende toda a gente, mas pensa por ti;
Aceita censuras, mas reserva a tua opinião.
Quanto a vestir, seja o que a tua bolsa pode:
O hábito, sabes, faz o monge.

William Shakespeare, Hamlet

A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz:

‘Nós somos a soma das nossas decisões’.

Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de lá nunca mais saiu. Compartilho do ceticismo de Allen: a gente é o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso. Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opção, estamos descartando outra, e de opção em opção vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar ‘minha vida’. Não é tarefa fácil. No momento em que se escolhe ser médico, se está abrindo mão de ser piloto de avião. Ao optar pela vida de atriz, será quase impossível conciliar com a arquitetura.

No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivém de romances. Até que chega um momento em que é preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguém, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e através do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa própria, orçamento doméstico e responsabilidades. As duas opções têm seus prós e contras: viver sem laços e viver com laços… Escolha: beber até cair ou virar vegetariano e budista?

Todas as alternativas são válidas, mas há um preço a pagar por elas. Quem dera pudéssemos ser uma pessoa diferente a cada seis meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se está bem-disposto e não tê-los quando se está cansado. Por isso é tão importante o auto conhecimento. Por isso é necessário ler muito, ouvir os outros, estagiar em várias tribos, prestar atenção ao que acontece em volta e não cultivar preconceitos. Nossas escolhas não podem ser apenas intuitivas, elas têm que refletir o que a gente é. Lógico que se deve reavaliar decisões e trocar de caminho: ninguém é o mesmo para sempre. Mas que essas mudanças de rota venham para acrescentar, e não para anular a vivência do caminho anteriormente percorrido. A estrada é longa e o tempo é curto. Não deixe de fazer nada que queira, mas tenha responsabilidade e maturidade para arcar com as conseqüências destas ações.
Lembrem-se: suas escolhas têm cinquenta por cento de chance de darem certo, mas também cinquenta por cento de chance de darem errado. A escolha é sua…

por Pedro Bial (dizem!)

O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos,
dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons.’
Martin Luther King